OS NOVOS GARIMPEIROS
Maira Begalli – Correspondente especial/Brasil
(os artigos em português (do Brasil) não são adaptados. Mantém a expressão original dos seus autores)
Um brasileiro consome em média 51 latas de alumínio por ano, ao adquirir produtos como: refrigerantes, sucos, chás, cervejas e águas gaseificadas. Mesmo sem uma legislação obrigatória sobre a coleta seletiva, o Brasil é campeão mundial em reciclagem do material. De acordo com o último relatório divulgado pela Associação Brasileira do Alumínio (ABAL), em parceria com a Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade (ABRALATAS), no ano de 2006, foram recicladas 94,4% das latas comercializadas no mercado interno. Percentual correspondente a 139,1 mil do produto descartado.
O uso de alumínio reciclado reduziu o consumo de eletricidade total no país, enquanto a reciclagem de latas usadas no ciclo de produção para o mercado de bebidas reduziu o consumo de bauxita, principal minério usado na produção de alumínio. Cada quilo de alumínio reciclado poupou a extração de 5 quilos de bauxita. "A reciclagem do alumínio proporcionou ao Brasil uma economia de 1.976 GWh/ano de energia elétrica. O suficiente para abastecer uma cidade com mais de um milhão de habitantes durante um ano”, ressalta o Relatório sobre a Reciclagem de Alumínio da ABAL e ABRALATAS.
A reciclabilidade é um dos atributos mais importantes do alumínio. Já que, ao contrário de outros materiais, o produto pode ser reciclado infinitas vezes sem perder suas qualidades no processo. Uma das formas de reciclagem do alumínio envolve as sobras de produção. Buscando minimizar perdas, as empresas reciclam retalhos de chapas, perfis e laminados, entre outros materiais.
Contudo, o exemplo mais comum de reciclagem é o da lata de alumínio para bebidas. As latas descartadas vão para depósitos de sucatas e após o processamento transformam-se novamente em latas. Os grandes protagonistas dessa história são os catadores de materiais recicláveis. A lata de alumínio tem o maior valor de sucata do mercado, cerca de R$ 3.50 o kg. O equivalente a 13 vezes mais que o kg da lata de aço, cinco vezes o kg de PET, e 25 vezes o kg das embalagens longa-vida.
No Brasil a reciclagem do alumínio movimenta R$ 1,7 bilhão por ano, envolvendo mais de 2.000 empresas de sucata, fundição de metais e transportes. Cerca de R$ 541 são direcionados a cada um dos 170 mil catadores informais envolvidos nas atividades relacionadas à coleta das latas de alumínio. Ou seja, tornou-se uma atividade integrada, que reúne desde as empresas produtoras de alumínio até os recicladores.
Entretanto os catadores muitas vezes são vistos como indivíduos excluídos da sociedade, embora realizem um serviço de utilidade pública muito importante. A profissão “Catador de Material Reciclável” existe desde meados de 1950, porém só foi reconhecida recentemente, em 2003 pela Classificação Brasileira de Ocupações. Enquanto as empresas produzem bens de consumo e conseqüentemente resíduos advindos de produtos descartados, o catador coleta tais materiais e os encaminham para reciclagem. Atualmente 89% das matérias-primas utilizadas pelas indústrias são provenientes do trabalho de catadores.
“É um trabalho realizado há muito tempo, eles foram os pioneiros. Muitos eventos se apropriam do discurso de reciclagem por causa do boom do aquecimento global, e o utilizam como tendência. Mas a verdadeira utilidade pública é feita pelos catadores. Diretores de marketing acabam distorcendo a proposta da reciclagem para valorizarem produtos, mas não enxergam o agente primário do processo”, ressalta Davi Amorim Coordenador de Comunicação do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis.
Fundado em 1999, o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) busca o reconhecimento e a valorização da categoria. O MNCR acredita na prática da ação direta popular, e na participação efetiva do trabalhador em tudo que envolve sua vida. Defende instrumentos que rompam com a indiferença do povo e possibilitem a transformação da sociedade. Entre os objetivos do MNCR estão: remunerar os catadores pelos serviços de coleta de materiais, conquistar melhores condições de vida para os catadores e suas famílias, erradicar os lixões e transforma-los em aterros sanitários.
O trabalho de coleta de materiais recicláveis garante alimentação, moradia e condições mínimas de sobrevivência para uma parcela significativa do povo brasileiro. “Atualmente o Brasil possui entre 300.000 a 1.000.0000 de catadores, que sobrevivem da venda dos materiais reciclados que retiram de lixões, das ruas, e de lixos domésticos”, informa Davi Amorim.
A maior parte dos catadores encontra-se na região sudeste do Brasil, já que a maioria migrou de outras regiões em busca de uma qualidade melhor de vida. Porém ao invés do sonho explícito em muitos meios de comunicação encontraram muitos obstáculos.“São pessoas que vivem abaixo da linha da miséria, famílias inteiras sobrevivem com R$ 140 reais por mês. Se não fosse o esforço em coletar materiais e vendê-los não teriam nada”, enfatiza Davi.
Buscando o fortalecimento e o reconhecimento para o trabalho dos catadores do país, o MNCR enviou uma delegação ao 3º Congresso Latino-americano de Catadores de Materiais Recicláveis e ao 1º Encontro Mundial de Catadores, que aconteceu em Bogotá, na Colômbia, entre os dias 1o e 4 de março de 2008. Os eventos deram continuidade aos debates iniciados no 2º Congresso Latino Americano de Catadores, realizado no Brasil há três anos atrás.
Durante as atividades foram reunidas organizações sindicais e de trabalho informal, movimentos sociais, ONG´s, organizações de pesquisa e universidades, dos diferentes continentes. Com isso, o MNCR pretende fortalecer a organização e conexão global de catadores brasileiros, gerando visibilidade para suas contribuições como trabalhadores que cuidam do meio ambiente, da saúde, da economia formal e da gestão de resíduos sólidos nas cidades do Brasil.
Maira Begalli – Janeiro de 2008.
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